quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Cristiano Romero do Valor toca na ferida: Dilma acredita mesmo no que está fazendo??

De fato, dá uma sensação que a presidente esteja fazendo o ajuste por que precisa e não por que acredita nele. Se for verdade, este ajuste seria mais uma mentira, e só vai gerar custos. Mas abandonar o ajuste significa quebrar de vez com o país e nos isolar dos mercados de capitais internacionais, assim como aconteceu com Argentina e Venezuela. 

Mas concordo plenamente que estas contradições e idas e vindas vão acabar minando a autoridade da Presidenta dentro do próprio Planalto, o que significaria a perda final da governabilidade que lhe resta, lamentavelmente.

Como sou radicalmente contra o conceito de impeachment econômico, caso este cenário acima se materialize, torço pelo bom senso de todos, inclusive da nossa líder.

Leia a excelente coluna do jornalista:


A resistência de Dilma - Por Cristiano Romero – Valor 16/9


Nem a trágica perda do grau de investimento, com suas duras consequências na economia real, parece ter dotado o governo da presidente Dilma Rousseff do senso de urgência necessário para enfrentar a grave crise que assola o país. As medidas fiscais anunciadas na segunda-feira mostram que a presidente segue resistente ao fato de que, agora, não há alternativa possível: é preciso cortar gastos, inclusive, na área social.


A debilidade política do governo prenuncia outro desastre: dificilmente, o Congresso aprovará a recriação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), cuja arrecadação esperada - R$ 32 bilhões - representa quase 50% do esforço fiscal anunciado para 2016. Nunca é demais lembrar que, em 2007, com a economia crescendo em torno de 6% ao ano e a inflação rodando na meta (4,5%) - um fato inédito -, o presidente Lula, reeleito e tendo superado o escândalo do mensalão, desfrutava de elevada popularidade e, mesmo assim, não conseguiu convencer o Congresso a estender a cobrança do tributo, extinto naquele ano.


Dilma resiste à realização de cortes no orçamento, especialmente, nos programas criados por ela ou sob sua inspiração política no segundo mandato do governo Lula. Os melhores exemplos são o Minha Casa, Minha Vida e o Programa de Aceleração do Crescimento. Nos dois casos, em vez de simplesmente eliminar despesas que não podem ser feitas agora, a presidente as transferiu para outras fontes, uma solução com déficit de seriedade.


A situação da presidente não é, de fato, fácil. Com popularidade abaixo de 10%, ela vem sofrendo há meses com manifestações de rua ruidosas contra seu governo. Recentemente, foi beneficiária de duas iniciativas em defesa de seu mandato, ambas organizadas pelo PT e alguns movimentos sociais. O problema é que esses grupos defenderam a presidente, mas bateram sem piedade no teor do ajuste fiscal. Diante disso, como governar contra a base social que a apoia? Isso dá uma noção da tragédia em  curso no Brasil.


Dilma é refém do discurso que a reelegeu. Ela quis fazer crer que o país passa agora por dificuldades porque seu governo teria tomado, corretamente, a decisão de adotar um sem-número de medidas para proteger, dos efeitos da "crise internacional", investimentos e empregos entre 2011 e 2014. Esse discurso é falso como uma nota de três reais: mesmo com o crédito farto e a montanha de subsídios concedidos pelo BNDES, a queda forçada da taxa de juros, a desvalorização administrada da taxa de câmbio, a redução da poupança do setor público e as desonerações tributárias, os empresários, em vez de aumentar, reduziram os investimentos. A razão: dadas as inconsistências da política econômica, faltou confiança. Os empregos, por sua vez, só foram mantidos graças a uma política desmedida de transferência de renda e estímulo ao consumo, que agora cobra o seu preço.


O governo, não se tenha dúvida, não cortará os gastos que precisa cortar. Vai protelar o máximo possível. Em conversas reservadas, técnicos da equipe econômica têm dito coisas do tipo: "Olha, lá no orçamento está dito que vamos gastar X bilhões em tal rubrica, mas, na prática, não vamos não". A prática do corte-na-boca-do-caixa é comum no Brasil, uma vez que o orçamento público é uma peça de ficção, mas o anúncio reservado da intenção de não gastar não faz preço, isto é, não melhora as expectativas dos agentes econômicos nem das agências de classificação de risco.


Dilma, assessorada por seu ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, se preparava para dar uma guinada na política econômica com a qual se comprometeu no início do atual mandato. A ideia era que, após o "fracasso" precoce do ajuste fiscal liderado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, o jeito seria colocar a economia para crescer, mesmo com aumento da inflação e da dívida pública. Com o PIB se expandindo, o problema fiscal seria resolvido e todos ficaríamos felizes.


A perda do grau de investimento não sepultou os planos da guinada, mas enfraqueceu a estratégia de se fazer isso já. Nem Dilma nem Barbosa mudaram seu DNA: ambos ainda acreditam que, com a concessão de estímulos fiscais e monetários, a economia brasileira voltará a crescer, mesmo em meio à deterioração fiscal e à elevação da inflação.


Num ambiente internacional bem mais favorável que o de agora, os empresários se recusaram a aumentar os investimentos quando a Nova Matriz Econômica, em 2012, derrubou a taxa básica de juros (Selic) para 2% ao ano em termos reais - hoje, está em 4,31% -, e promoveu forte depreciação da taxa de câmbio, tirando-a de R$ 1,70 para R$ 2,00 em curto espaço de tempo. Por que investiriam agora?


Quando perceberam que o governo ensaiava mudanças na economia, empresários e banqueiros que protagonizaram um movimento de concertação para acalmar os ânimos em Brasília e apoiar o mandato da presidente deram-lhe um ultimato: voltar ao curso do ajuste fiscal, com entrega de superávit primário de 0,7% do PIB em 2016 - insuficiente, diga-se de passagem, para estabilizar a relação entre dívida bruta e PIB -, sob pena de perda do apoio recebido.


Dilma não chegou a ignorar os sinais, mas reagiu à sua maneira. O pacote para entregar o esforço de 0,7% do PIB saiu depois da perda do grau de investimento, mas veio marcado, como se viu, pela resistência da presidente em cortar despesas. Mais uma vez, o governo transferiu ao Congresso a responsabilidade de resolver os problemas, muito provavelmente sabendo que os parlamentares não concordarão em assumir o ônus do aumento de impostos.


Com dificuldades de colher votos até em sua base de apoio, o governo dificilmente conseguirá aprovar o pacote. Deveria, portanto, ter invertido a tática: cortar na própria carne e contar o mínimo possível com a ajuda do Poder Legislativo.


Hoje em Brasília tudo é muito precário porque Dilma não transmite confiança nem aos auxiliares. Politicamente, com a situação econômica em franca deterioração, as coisas tendem a piorar. O quadro é imprevisível, mas, à medida que os fracassos se acumulam e a economia afunda, cresce a expectativa de eventos extraordinários e dramáticos, como impeachment e renúncia.


Palavras de um vivente, testemunha ocular do que ocorre na cúpula do poder: "O Palácio vive um clima de desmando, de desordem. Parecem não saber nem como lidar com a boataria básica. Começo a temer pela governabilidade real. Do cotidiano".

 

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