quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Taxa de câmbio real bate maior nível desde 2002

Um dos conceitos econômicos  que nos ajudam a ver se a nossa moeda está cara ou barata  é a taxa de câmbio real. Tomando como base alguma data passada, verifica-se quanto os preços domésticos subiram desde então usando o índice de inflação no Brasil.  Faz-se a mesma coisa com as inflações dos países com os quais temos comércio internacional, calculando a sua média de acordo com a participação de cada país no nosso fluxo de comércio. Chega-se aí ao diferencial entre a nossa inflação local e a inflação de nossos parceiros em tal período período.

Calcula-se então a desvalorização nominal de nossa moeda no período vs. a média moedas de nossos parceiros e desconta-se dela o diferencial de inflação para chegar na variação real da nossa taxa de câmbio.

Se fizemos este cálculo mensalmente, podemos gerar um gráfico da evolução de nossa taxa de câmbio real, tomando-se como base alguma data no passado. No caso do nosso R$, o BC construiu uma série de dados que é mostrada abaixo:







O gráfico preto mostra a evolução de nossa taxa de câmbio real mensal desde 1988, calculada pelo BC conforme descrevi acima. Para estimar o nível atual usei a taxa de câmbio de 4,10. O gráfico amarelo mostra sua média móvel de 12 meses. 

A reta cinza horizontal mostra a média da nossa taxa real de câmbio desde 1988. As retas horizontais, verde na parte inferior do gráfico e vermelha no alto, mostram níveis onde o desvio do câmbio real vis a vis sua média no período estaria acima de 2 desvios padrões, ou seja, são situações de desvios extremos.

Quanto mais próxima a linha preta estiver da linha horizontal verde mais desvalorizada estaria nossa moeda.  E quanto mais próxima a linha preta estiver da linha vermelha no topo, mais valorizado estaria nosso R$ diante das moedas de seus parceiros comerciais.

Vemos que desde 2011 (seta roxa), quando o nosso R$ atingiu um nível de valorização similar àquele prevalecente após o Plano Real (seta rosa), nossa moeda vem se desvalorizando de forma contínua.Vemos também que, de acordo com esta medida, o nosso  R$ estaria hoje (seta azul)  muito próximo aos níveis extremos de desvalorização ocorridos na crise de 2002 (seta marrom), véspera da posse de Lula. 

Ou seja, seria este o pico do dólar? Impossível afirmar. Porém podemos ver que nossa moeda sofreu um processo agudo de desvalorização nos últimos anos e que, portanto, devemos ter recuperado bastante de nossa competitividade externa.

Quais fatores impulsionaram esta desvalorização extrema do real?
  • Processo global de alta do dólar que ocorreu nos últimos meses, causado pela proximidade do início da normalização monetária nos EUA, 
  • Queda no preço de algumas commodities que exportamos, em função da desaceleração da economia Chinesa;
  • Forte elevação do prêmio de risco Brasil causado pela crise fiscal e política que nos atinge, que acaba aumentando a demanda por divisas.
Logo, para prever o que vai acontecer com o R$ daqui para frente, é preciso saber como estes 3 fatores acima irão se comportar daqui para frente, o que não é uma tarefa trivial.  Contudo, podemos esperar uma melhora substancial dos nossos saldos externos daqui para frente, por 3 razões:
  • Enorme capacidade ociosa existente na Indústria, o que cria espaço para a produção de bens voltados para o mercado externo ou para substituição de importações, sem criar pressões de custos, aliada à maior oferta de mão de obra:




  • Termos de troca ( preços dos bens exportados vs. importados), embora tenham caído bastante, ainda se encontram em nível superior àqueles prevalecentes em 2002:




  • Risco país, que embora tenha disparado recentemente, está bem inferior aos quase 2000 pontos atingidos quando da eleição do presidente Lula:




Ou seja, a menos que haja uma deterioração ainda maior no cenário interno ou uma elevação mais veloz dos juros nos EUA, é pouco provável que o dólar repita a valorização ocorrida nas últimas semanas. Mas, dada a volatilidade dos últimos dias, especular com isto é um exercício extremamente arriscado. 












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